Faça as pazes com você
Perdoar não é só questão de generosidade. Nem é fácil. Quando a gente consegue, fecha uma ferida, sai fortalecido e reencontra o equilíbrio emocional
A história daquela senhora sempre me impressionou. O marido a abandonou, deixando para trás uma casa cheia de contas para pagar e dois filhos pequenos. Ela podia ter se descabelado, entrado em depressão ou deixado a peteca cair com aquela responsabilidade toda. Que nada. Manteve a tranquilidade até quando soube que o ex-marido estava casado com outra mulher, com quem teve mais filhos. Quando o ex-marido morreu, deixou também a segunda família à míngua. A senhora foi até lá e pegou os outros filhos do ex-marido para criar. Ela perdoou a traição e seguiu em frente. Ainda bem, senão eu não estaria escrevendo este texto aqui hoje. Essa velhinha é a minha bisavó, que viveu até os 93 anos, tempo suficiente para deixar para os bisnetos um exemplo de que perdoar vale, sim, a pena.
A marca fica, porque perdoar não quer dizer simplesmente esquecer, mas compreender e superar a agressão.
A ideia é aprender com o que passou, colando os pedaços de um jeito que faça a gente mais resistente.
Sabe por quê? Porque o perdão é uma ferramenta necessária para a evolução da humanidade. No século passado, a França brigou com a Inglaterra, que lutou contra a Alemanha, que guerreou com os Estados Unidos, que bombardearam o Japão, que atacou a China, que teve rusgas com a Rússia. E nem por isso o mundo parou – graças ao perdão. Claro, há interesses bem concretos que ajudam a explicar por que um país não corta relações com o outro. Mas a mágoa, quando fica, acaba servindo de desculpa para novas guerras. E as nações, se ficam isoladas, progridem mais devagar ou simplesmente não evoluem.
Entre as pessoas ocorre coisa parecida. Com o perdão, o conflito é superado e a vida continua – em outra sintonia, mais leve e melhor. Não é só uma questão de generosidade, embora ela seja bem importante. É questão de admitir que todos erram, às vezes sem intenção, às vezes por pura fraqueza. E saber que, concedendo o perdão, você tem muito a ganhar, inclusive do ponto de vista de seu bem-estar emocional e físico.
Apesar do alívio que traz, aprender a perdoar está na lista das tarefas mais difíceis para todos nós.
Por Mariana Motomura
Continua na próxima edição