O alçapão da droga
Um belo dia, eu estava esperando um paciente de 16 anos no meu consultório e cheguei à janela para contemplar aquela manhã de sol maravilhosa. Apesar de ter cerca de quatro anos que sempre faço isto no intervalo dos meus atendimentos, neste dia eu fiz uma reflexão diferente para algo que sempre observava da minha janela. Do terceiro andar do prédio, olhava sempre para um viveiro cheio de pássaros no quintal do meu vizinho.
Como psicólogo, sempre refletia sobre a vida daquelas pequenas e indefesas criaturas que apesar de terem nascidos para voar, passavam ali dias e dias engaiolados. O que passaria na cabeça dos seus “donos” por mantê-los nesta clausura? Enfim, viajava nos meus pensamentos até que o interfone tocava e minha atenção voltava novamente para o meu paciente em sofrimento psíquico.
Porém, neste dia específico, notei algo que até então tinha passado despercebido. Observei um alçapão armando pronto para pegar novamente a próxima vítima inocente e desavisada. Não sei por que, mas logo tracei um paralelo com a vítima da dependência química.
Assim como o pássaro desavisado, faminto e inocente, muitos adolescentes e jovens, às vezes até crianças, caem neste alçapão das drogas. Na busca de saciar sua fome de amor, de sentido para sua vida é seduzido para este alçapão. Quando se dá conta, ele esta preso nesta armadilha cruel da dependência química.
Nascido para “voar” com seus dons e talentos, o “miserável” dependente químico vai ficar ali, “engaiolado” nos seus problemas físicos, financeiros, emocionais, mentais e sociais. Enquanto isto o “dono do viveiro da droga” continua cada vez rico e com sua liberdade garantida até que um dia o “IBAMA” da Polícia descobre este cativeiro.
Neste momento, meu jovem paciente adentra ao meu consultório. Comento com ele sobre esta reflexão e ele assina em baixo em tudo que eu lhe falei e finalizou: “foi isto que aconteceu comigo. Quando você vai escrever sobre isto no seu jornal?”. Todas as sessões seguintes com este paciente a primeira coisa que ele me perguntava era sobre este texto.
Atendendo a seu insistente pedido, vai aqui o texto que pode produzir uma reflexão para outros alçapões e gaiolas que existem nas nossas vidas. Pense nisto!
Cláudio Martins Nogueira
Psicólogo Clínico – Especialista em dependências e codependência