Faça as pazes com você – III
By Cláudio

Faça as pazes com você – III

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Ira inicial

Você estava tão empolgado com aquele novo plano de vendas que contou a um colega sua brilhante ideia. E, antes que você percebesse, o tal colega foi ao chefe e apresentou o projeto como se fosse dele. O que fazer? Começando pelo começo: bote para fora a raiva. Sim, é normal sentir raiva, esse sentimento feio que tentamos esconder sempre que dá. Desabafe, grite, chore e conte para alguém de confiança, como sua mãe, seu marido ou sua namorada. Fingir que nada aconteceu e guardar a ira só para você não ajuda em nada. “Há dois tipos de raiva. Uma fica dentro de mim me remoendo e me paralisando, e a outra me impulsiona para a reação”, diz a psicóloga Adriana Carbone, de São Paulo. Esse segundo tipo é que vai ajudar a superar a sensação de ter sido enganado.

Em um segundo momento, quando a poeira tiver baixado um pouco, é hora de relembrar a história e tentar entender, tintim por tintim, o que aconteceu. É bom recordar os fatos sem se vitimizar ou demonizar a pessoa que magoou você. “Se a pessoa precisa perdoar alguém, é porque se sentiu agredida. É preciso, então, pensar: eu fui mesmo agredido ou só me senti agredido? Porque muitas vezes as pessoas se sentem agredidas sem terem sido de fato”, diz Wimer.

Outra dica é dosar sua expectativa em relação aos outros. “Muitas vezes, as pessoas magoadas acham que os outros não cumprem as suas expectativas. Mas ela pode ser uma pessoa que espera demais. Assim. Com frequência os outros não vão corresponder”.

E nada de se colocar no papel de coitadinho – é preciso assumir também sua parcela de responsabilidade na tal história que tanto o chateou. “Perdoar o outro que me magoou é reconhecer em mim onde foi que eu negligenciei”, diz a psicóloga Adriana Carbone. “No geral, alguma coisa eu fiz ou deixei de fazer para que o outro fizesse o que me chateou. Se eu dei confiança demais para uma pessoa e ela abusou, não é apenas porque ela é uma traíra, mas também porque eu dei espaço”. Mas atenção: chamar a responsabilidade para si é diferente de se culpar. “Se você olha para dentro de si, naturalmente vai enxergar uma série de limitações. A partir de uma autocrítica profunda, você aumenta sua dose de autoconsciência e vai dissolvendo seus erros”, diz o monge Ricardo Gonçalves.

Muita calma nessa hora, porque esse processo pode levar algum tempo e é incômodo – nem sempre é agradável reconhecer que também deslizamos e abrimos uma brecha para que a agressão acontecesse.

Mesmo uma mágoa pequena pode esvaziar parte da graça da vida, se a gente esquece de olhar para ela e remendar.

Continua na próxima edição.

Por Mariana Motomura

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  • 06/07/2026