Faça as pazes com você – II
By Cláudio

Faça as pazes com você – II

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Perdoar não é só questão de generosidade. Nem é fácil. Quando a gente consegue, fecha uma ferida, sai fortalecido e reencontra o equilíbrio emocional

Oferecer a outra face

Nas religiões, a ideia de perdoar é bem antiga – apareceu antes mesmo do cristianismo. “Dentro do velho judaísmo, as doenças eram vistas como consequência do pecado de alguém da família, que podia ser perdoado por Deus”, diz o teólogo e padre católico Edélcio Serafim Ottaviani. Hoje, o ato de perdoar, para os judeus, não é exclusividade divina, mas continua sendo central na religião. “No Yom Kippur, o Dia do Perdão, a gente jejua e faz uma manifestação de remorso pelo que fizemos de errado. É o dia mais importante do calendário judeu, porque é impossível viver sem perdão”, diz o rabino Henry Sobel, presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista. “Antes de pedir perdão a Deus na sinagoga, temos a obrigação de pedir perdão aos nossos semelhantes. Deus perdoa somente quando nós perdoamos uns aos outros”, afirma.

No catolicismo, que herdou parte da doutrina judaica, o perdão está em uma das principais orações repetidas pelos fiéis, o pai-nosso: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido”. Mesmo assim, é mais comum encontrar um católico pedindo perdão a Deus do que oferecendo perdão a um vizinho briguento. Os cristãos ensinam que, para quem pede perdão, é indispensável o arrependimento sincero. “Não basta admitir superficialmente as próprias faltas e se perdoar, é preciso também fazer um ato de ressarcimento e de penitência, que relembre o pecador da gravidade de sua falta”, diz o padre Edélcio. Para quem perdoa, a generosidade é indispensável – até para oferecer a outra face.

Nas religiões orientais, como o budismo, o perdão é mais humanizado, porque as fraquezas humanas são consideradas parte do jogo. “Todos nós somos entes profanos. Temos que nos aceitar uns aos outros com nossas mazelas”, diz o monge budista Ricardo Mário Gonçalves. Assim, perdoar outra pessoa também é uma forma de admitir – e assimilar – nossos próprios erros.

Na prática, seguir a ética das religiões não é tão fácil assim. “A gratidão e o perdão são sentimentos de pessoas muito nobres, que estão dispostas a compreender o outro”, diz o psiquiatra Wimer Bottura Junior, diretor científico da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática. Haja desprendimento, se você pensar o perdão só como uma questão de ser boa-praça ou de seguir preceitos religiosos. Por isso, você não vai encontrar neste texto nenhuma frase do tipo “perdoar é simples, basta tentar”. Aprender a perdoar está na lista das tarefas complicadas, que exigem dedicação, mas que trazem aquele gostinho especial das empreitadas difíceis: leveza de espírito, alívio, paz e até benefícios para a saúde. Quer tentar?

É preciso admitir que às vezes temos uma parcela de responsabilidade na agressão que sofremos.

Por Mariana Motomura

Continua na próxima edição.

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  • 02/07/2026