Capítulo 1 – parte 06 -A história de Bill – Co-fundador do AA (Alcóolicos Anônimos)
Capítulo 1 – parte 06
A história de Bill – Co-fundador do AA (Alcóolicos Anônimos)
Como é escuro antes da aurora! Na verdade, aquele era o começo da minha última orgia. Em breve, eu seria lançado no que gosto de chamar “a quarta dimensão da existência”. Iria conhecer felicidade, paz e utilidade, num estilo de vida que se torna cada vez melhor, à medida que o tempo passa.
Quase no fim daquele triste mês de novembro, eu bebia, sentado na cozinha de minha casa. Com alguma satisfação, refleti que havia gim suficiente, escondido pela casa, para me ajudar a passar aquela noite e o dia seguinte. Minha mulher estava no trabalho. Imaginei se me atreveria a esconder uma garrafa cheia de gim perto da cabeceira de nossa cama. Precisaria dela antes do amanhecer.
Minhas reflexões foram interrompidas pelo telefone. A voz alegre de um velho amigo do colégio perguntou-me se poderia me visitar. Ele estava sóbrio. Havia anos que ele não vinha a New York naquele estado. Eu estava perplexo. Corriam boatos de que havia sido detido por insanidade alcoólica. Fiquei imaginando como escapara. Sem dúvida ele viria jantar, e eu poderia então beber junto com ele, sem restrições. Sem me preocupar com sua saúde, eu pensava apenas em reviver o clima do passado. Houve aquela vez em que fretamos um avião para fazer uma farra! Sua visita era um oásis naquele melancólico deserto de futilidade. Exatamente isto: um oásis! Bêbados são assim.
A porta se abriu e ali estava ele, corado e bem disposto. Havia algo em seu olhar. Ele estava inexplicavelmente diferente. O que acontecera?
Coloquei um copo de bebida à sua frente. Ele recusou. Desapontado, mas curioso, perguntei-me o que haveria com ele. Não era mais o mesmo.
“Escute, o que há com você?”, perguntei.
Ele me olhou nos olhos. Com simplicidade, mas sorridente, respondeu: “Tenho religião.”
Fiquei perplexo. Então era isso. No verão passado, um alcoólico amalucado. Agora, eu suspeitava, com ideias meio malucas de religião. Havia aquele olhar fixo. É, meu velho amigo estava mesmo delirando. Mas bendito fosse, ele que tagarelasse à vontade! Além disso, meu gim duraria mais do que o seu sermão.
Mas ele não disse bobagens. Na verdade, contou-me como dois homens haviam aparecido no tribunal, convencendo o juiz a suspender sua pena. Falaram de uma simples ideia religiosa e um programa prático de ação. Aquilo acontecera havia dois meses e o resultado era evidente. Funcionava!
Ele viera me transmitir sua experiência, se eu estivesse interessado. Eu estava chocado, mas interessado. É claro que eu estava interessado. Tinha que estar, porque estava desesperado.
Literatura do AA – Continua na próxima edição