Os não lugares da sociedade moderna
Os não lugares da sociedade moderna
No livro Cristiane F. 13 anos, drogada e prostituída, a autora descreve a infância das crianças moradoras do conjunto Gropyus, localizado em Berlim, capital da Alemanha.
De forma dramática e com muita habilidade, ela relata os não lugares do mundo moderno. Um conjunto habitacional enorme onde milhares de famílias dividem cubículos em que o espaço para as crianças não é considerado no projeto arquitetônico. A praticidade e a economia do mundo capitalista não perde tempo com estas “futilidades”.
As áreas verdes existentes têm uma placa, “Proibido pisar na grama”, restando alguns brinquedos depredados localizados numa área suja e sem cuidado.
As crianças, com a vontade inerente do brincar, começavam a usar os elevadores dos prédios. Aquela famosa e antiga brincadeira de “esconde-esconde” da “polícia e ladrão” era sempre repreendida pelo síndico e por todos os moradores.
Observando a nossa cidade, é possível perceber que estes “não lugares” permanecem.
A começar pelo nosso próprio lar. Casas pequenas, com pouco espaço para as crianças se desenvolverem, TVs em cada quarto, um celular, um computador ou notebbok para cada pessoa, separando assim todos os membros da família, impossibilitando uma relação efetiva entre irmãos, pais e filhos.
Nos locais de lazer, com raríssimas exceções, são voltados para a “lógica capitalista” do lucro fácil. Shoppings, teatros, boates, shows e barzinhos voltados com uma única finalidade: O consumo exacerbado.
Na cidade, estas alternativas de lazer inviabilizam os encontros efetivos de dos seres humanos.
Nas escolas e igrejas, esta história não muda. As salas de aula com muitos alunos dificultam uma maior aproximação do educador. As igrejas lotadas de fiéis não conseguem abrir espaço de forma à participação da comunidade, limitando sua atuação às reuniões, cultos em que os líderes têm pouca chance de conhecer os liderados. E, infelizmente, a visão do lucro, muitas vezes se sobrepõem aos valores humanos.
As praças e parques, cada vez mais escassos, seriam os únicos lugares onde as pessoas poderiam conversar e namorar, brincar e se conhecer. Porém, a degradação desses lugares, a frequência de vândalos, o uso/abuso de álcool e outras drogas e os riscos de assalto cada vez maior limitam esta alternativa de uma prática de esporte e de convivência social mais saudável.
O que fazer diante de tal situação? Precisamos resgatar os verdadeiros valores humanos. A necessidade do diálogo, da troca de carinho, do brincar, do cantar no embalo de um violão, do comer pipoca com refrigerante, do saborear um pão de queijo ou uma pizza no ambiente mais acolhedor se torna imprescindível.
Precisamos encontrar momentos para desligar a TV, o rádio, o celular e demais eletrônicos nos ligarmos aos nossos filhos. Brincar, praticar esportes, passear e divertir com eles é um excelente antidoto para este problema. Visitar um amigo, acolher uma criança e dar atenção à história de um idoso também podem ajudar nesta humanização deste chamado “não lugar”.
Portanto, podemos construir “lugares” num mundo de “não lugares”. Basta sermos criativos e encontrar formas de conhecer o outro.
A psicologia proporciona exatamente esta possibilidade de construir um lugar onde o sujeito é escutado, é acolhido e compreendido, porém, é no seio da nossa família, é na nossa escola e na nossa comunidade que teremos condições de melhorar ainda mais o nosso ambiente e o nosso mundo.
Pense nisto e vá à luta. O mundo é construído pelas nossas mãos.
Fonte: Livro “O Outro Lado da Droga” do autor Cláudio Martins Nogueira