O vício tem cura?
By Cláudio

O vício tem cura?

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O vício tem cura?

Muitas pessoas, especialmente aquelas que possuem um vínculo muito forte com a religião acreditam e afirmam categoricamente que a doença da dependência química tem cura. De forma equivocada chegam a criticar e desvalorizar as afirmativas dos técnicos, dos profissionais da saúde, da OMS (Organização Mundial da Saúde) e dos grupos de apoio como os Alcóolicos Anônimos, Narcóticos Anônimos e tantos outros espalhados em todo o mundo. Apesar das experiências de tanta gente séria dizer o contrário, alguns religiosos insistem dizer que a dependência tem cura.

Para abordar este tema é importante esclarecer o que é uma doença crônica e incurável de uma doença aguda e curável. O melhor exemplo de uma doença crônica é a diabetes que seria uma deficiência do pâncreas em produzir insulina para “quebrar” a glicose. Infelizmente, por enquanto ainda não foram comprovados nenhuma terapêutica que cura, mas sim, apenas tratamentos que controla esta doença. Uma vez diagnosticado, o tratamento deste paciente deverá ser pelo resto da vida. Assim como a diabetes, várias doenças possuem esta característica, inclusive a dependência química. As doenças consideradas agudas são aquelas provocadas por infecções diversas oriundas de vírus e bactérias. Feito o tratamento com antibióticos e outros medicamentos para este fim, a doença desaparece e o tratamento poderá ser suspendido.

Na dependência química, a experiência com o tratamento é que se o doente o abandonar ele volta ao uso da droga e maneira compulsiva. No AA e nos outros grupos, e até mesmo dentro da igreja, se o dependente parar de se tratar a doença se manifesta novamente. Se a adicção tivesse cura um dependente poderia voltar a fazer uso social da droga e não teria mais eventos de abuso. Este é o sonho de todo adicto, voltar a usar sem abusar. Mas infelizmente isto é apenas uma fantasia.

Até mesmo o mais fiel dos religiosos (isto inclui os grandes lideres) se forem portadores de uma doença crônica como a dependência química, se abandonarem a palavra de Deus (que seria um tratamento espiritual), provavelmente vai voltar a se embriagar como era antes da conversão. Ou será que estes curandeiros de plantão não adoecem e não precisam de medicamentos e nem de médicos?

Portanto, ao invés de desqualificar os profissionais, estes religiosos deveriam conhecer um pouco mais sobre a doença e principalmente sobre o tratamento. É preciso entender que esta doença tem vários aspectos como o físico, o emocional, o mental, o social e o espiritual:

1 – Tratamento físico: Acompanhamento médico, medicação para possíveis comorbidades e uma alimentação equilibrada, um ambiente protegido de drogas é muito importante para a desintoxicação física;

2 – Tratamento emocional: Um espaço terapêutico com psicólogos (individual e em grupo), onde o sujeito possa falar de suas dores é fundamental na recuperação;

3 – Tratamento mental: Um ambiente onde o sujeito se sinta seguro, com experiências positivas e que ajuda a desintoxicação mental faz parte do processo;

4 – Tratamento social: A convivência entre os iguais, as partilhas nos grupos de apoio são essenciais, não só para compreender sua doença, como também para ajudar na socialização do sujeito;

5 – Tratamento espiritual: Sem dúvidas, o viés da espiritualidade se encontra presente na maioria dos processos de recuperação de um dependente químico e dos codependentes.

Portanto, um tratamento eficaz deve levar isto em consideração, lembrando que a duração do tratamento é para os próximos cem anos da vida do dependente e dos seus codependentes. Se abandonar o tratamento a doença pode voltar por um motivo simples: na verdade, ela nunca foi embora.

Com tudo isto é possível concluir que o vício não tem cura, mas sim, tratamento.

Cláudio Martins Nogueira – psicólogo clínico – especialista em dependência química.

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  • Junho 18, 2024
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