Faça as pazes com você – IV
By Cláudio

Faça as pazes com você – IV

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Ver o outro lado

Depois que já relembrou a situação e entendeu direitinho seu papel, vale a pena dedicar um tempo para refletir sobre a atitude de quem feriu você. “Pode parecer piegas, mas tenho que enxergar as semelhanças e as diferenças entre mim e o outro, para ter uma multiplicidade de visões”, diz Adriana Carbone. É a velha história de se colocar no lugar do outro.

Foi o que fez a secretária Kelly Ramos com o motorista bêbado que a atropelou quando ela tinha 15 anos. “Fiquei sabendo que ele era bicheiro e já tinha sido preso. Fiz um esforço para pensar no lado dele. Eu não sabia o que esse homem passava, devia ser tão infeliz”, relembra. Quando ela foi aos tribunais para o julgamento do agressor, já o tinha perdoado. Ninguém se iluda: não foi de uma hora para outra. Ela admite que por um bom tempo sentia raiva do motorista, mas conseguiu superá-lo ao pensar que aquela ira toda não a levaria a lugar algum. Mesmo após perdoar o motorista, ela levou o julgamento até o fim, pois não queria que outras pessoas acabassem sob as rodas do “barbeiro” inconsequente.

O perdão de Kelly não significa que ela tenha esquecido a gravidade do acidente. “Perdoar não é esquecer. Isso seria negar sua história de vida, perder sua realidade”, diz o psicólogo Alexandre Rivero. Também é importante perceber que o principal beneficiado é sempre aquele que perdoa – é ele quem ganha paz ao tirar o peso da mágoa de seu coração.

Kelly não esperou o motorista pedir perdão para perdoá-lo. E muitas vezes as pessoas que nos magoam não pedem perdão mesmo. Nesse caso, elas podem simplesmente nem ter se dado conta de que nos machucaram ou são simplesmente inseguras. “Algumas pessoas se sentem fragilizadas e não conseguem assumir que são um ser em construção. O problema é que, quando a pessoa passa uma imagem muito inatingível, por trás dessa imagem existe um medo muito grande de ser percebido como frágil”, afirma Alexandre Rivero.

Agora, vamos combinar: não é o caso de se policiar e querer perdão por tudo. Nos pequenos atrasos ou deslizes cotidianos, um pedido de desculpas resolve. Sim, preste atenção na maneira como muitos de nós usam as duas expressões, com significados ligeiramente diferentes. Perdão em geral se aplica a coisas mais sérias, que exigem uma reflexão – e uma superação – mais elaborada. Desculpas são, digamos, algo mais light. “Pedir desculpas é pedir que a culpa seja atenuada ou eliminada”, esclarece o psicólogo Antônio Carlos Amador Pereira, da PUC de São Paulo.

É bom ter em mente que, em princípio, tudo pode ser perdoado. Mas é claro que isso exige que cada um flexibilize seus limites pessoais e esqueça palavras como “nunca” ou “sempre”. Para perdoar de verdade, abra mão de preconceitos e ideias empoeiradas. “Não há nada que não possa ser perdoado, mesmo o assassinato de crianças ou as atrocidades do holocausto. O que acontece é que algumas pessoas têm mais dificuldade para perdoar do que outras”, diz o psicólogo Frederic Luskin da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Se você não é desse grupo de pessoas super flexíveis, considere o perdão como um desafio e vá em frente. E, pode reparar, em matéria de perdão, quanto maior o esforço, maior o ganho.

Questões mais leves se resolvem com simples desculpas, mas perdoar exige reflexão profunda.

Continua na próxima edição.

Por Mariana Motomura

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  • 31/07/2026