O “faxineiro” da alma.
Muitos tabus e preconceitos perpassam o trabalho do profissional de psicologia. Culturalmente, entendemos a psicologia como algo destinado aos portadores do sofrimento mental, popularmente conhecido como os loucos. Sugerir a alguém que procure um psicólogo é como se estivesse dizendo: “você está louco!”.
Outra visão do senso comum é colocar a psicologia como um modismo, algo para uma elite de madames que não possuem nada para fazer. Dizer que está indo ao terapeuta dá status junto às amigas. Muitos acreditam que não adianta nada ficar falando, falando… Sem nada de concreto e objetivo. Lembro-me certa vez que fui atender pela primeira um engenheiro no meu consultório. Este pai de um jovem dependente químico iniciou sua fala me dizendo diretamente: “eu gostaria que você soubesse que estou aqui por insistência da minha esposa. Não acredito no trabalho da psicologia. Pode começar a falar”.
A psicologia é a ciência que estuda a psique humana, em outras palavras, a alma humana. As emoções e o sofrimento mental do ser humano são os objetos de estudos do psicólogo. As técnicas psicológicas desenvolvidas em mais de cem anos de experiência são instrumentos eficazes para possibilitar uma “faxina” na alma. A escuta sem julgamento, o espaço da fala sem preconceito, a compreensão das experiências do sujeito, as observações do comportamento humano e o feedback ao cliente são ferramentas importantes para que o cliente possa ter um suporte nos momentos difíceis que todos estão sujeitos. Exemplo clássico aconteceu em uma determinada sessão com uma cliente. Após um ano atendendo-a semanalmente, percebi que algo estava travando seu desenvolvimento emocional. Ela não conseguia abordar problemas da sua infância e do seu relacionamento conjugal. O foco estava sempre no filho dependente de drogas. Usei da analogia de um faxineiro. Contei-lhe a seguinte história: Certa vez, minha mãe procurava um faxineiro (a) e foi indicado a um bastante conhecido no bairro. Ao abordá-lo, ele olhando em sua agenda, mostrou para minha mãe que tinha 10 pessoas esperando uma vaga. Segundo ele, a procura era muita porque ele era um faxineiro de verdade, que limpava até as caixas de gorduras da casa, pois era de lá que vinha baratas, ratos, insetos e bactérias. Completei dizendo: “o psicólogo é o faxineiro da alma”.
Sem saber de nada, falei para minha cliente que as pessoas que não estão dispostas a fazer esta “faxina da alma” tendem a repetir estas experiências do presente, trazendo sofrimentos físicos e psíquicos. Dentre eles é muito comum a constipação intestinal. A cliente surpresa com minha intervenção revelou este problema em sua vida e que o próprio médico já lhe havia alertado sobre uma possível causa emocional. Será isto uma simples coincidência ou ciência?
Claudio Martins Nogueira – Psicólogo clínico