A maquineta de roubar pitangas
Acho que eu teria dado um bom engenheiro. De que eu me lembro, as primeiras manifestações da minha inteligência foram na área da engenharia.
Engenharia é coisa bonita. Engenheiros são pessoas que se dedicam a fabricar artefatos inteligentes. Eu os vejo como pessoas que se dedicam a construir pontes entre o “corpo” e o “desejo”, fazendo com que se dê o encontro entre ambos. Quando o “desejo” é realizado o “corpo” fica feliz.
Quero agora relatar a minha primeira experiência na construção de um artefato inteligente. Este artefato, recurso que a Inteligência (o engenheiro) constrói para conseguir aquilo que o corpo deseja, foi uma invenção, pois este artefato jamais havia sido construído.
Eu tinha seis anos. Ao lado da minha casa havia outra casa com quintal cheio de árvores frutíferas. Perto do muro havia um pé de pitangas, frutinhas vermelhinhas, miniaturas de morangos. Deveria ser deliciosa. Imaginei o prazer que teria comendo-as. Prazer imaginado é um tormento. Não dá descanso. Mas as pitangas estavam longe dos meus braços.
Foi aí que, do lugar do “desejo”, partiu uma ordem para a “inteligência”. Na verdade está errado em falar em inteligência no singular. Nosso corpo é uma casa onde, em cada quarto, jaz adormecida, encantada, uma inteligência diferente: a lógica, a clínica. A culinária, a lúdica, a mecânica, a criminosa, a pedagógica, a médica e uma infinidade de outras. Cada uma serve para uma operação específica. Adormecidas, elas obedecem aquilo que o desejo determina. E foi assim que aconteceu comigo.
Meu desejo de comer pitangas despertou a inteligência criminosa que me mandou pular o muro e roubar as pitangas. Mas a inteligência da prudência acordou e me disse: “de jeito nenhum. Se o dono aparece pode me dar uns tapas”. Trancafiei a inteligência criminosa. No seu lugar apareceu a Inteligência engenharial que disse: “faça uma maquineta de roubar pitangas. Vou lhe ensinar.” E pôs-se a me dizer o que fazer. Eu teria que trabalhar. Inteligência sozinha não faz nada. Ela só pensa. Precisa do corpo para transformar o pensamento em realidade. Eu teria que encompridar o meu braço. Achei um longo bambu. Depois teria que acoplar uma mão mecânica na ponta do braço do bambu. Uma latinha de massa de tomate com um dente na borda
Amarrada na ponta do bambu. Eis minha maquineta de roubar pitangas. Roubei e comi quantas pitangas que eu quis.
As inteligências dormem. Inúteis são as tentativas de acordá-las por meio da força e de ameaças. As inteligências só entendem o argumento do desejo: elas são ferramentas e brinquedos do desejo.
A tarefa do professor: mostrar a frutinha. Comê-la diante dos alunos. Provocar a fome. Erotizar os olhos. Faze-los babar de desejo. Acordar a inteligência adormecida. Aí a cabeça fica grávida, engorda com as ideias. E quando a cabeça engravida, não há nada que segure o corpo.
Rubens Alves – Cenas da Vida