Visitas indesejadas
By Cláudio

Visitas indesejadas

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Certa vez, a muitos anos atrás, quando a participação da família nas reuniões não era obrigatória para visitar os residentes em tratamento da dependência química na Fazenda de Caná, uma esposa foi visitar seu tão amado marido. Chegando lá ela ficou muito emocionada com a sua recuperação física e emocional dele. Até de Deus ele estava falando com muita confiança e, de maneira inconsciente, ele começou a manipular a sua esposa que já estava muito bem e que não precisaria ficar os nove meses. Ele precisa voltar para reconstruir sua família e suas finanças.

A esposa, muito emocionada, sentiu que o homem da sua vida estava sendo sincero nas suas palavras e para piorar ela comentou:

– Que maravilha meu amor, isto é muito bom. Nossas contas estão atrasadas, o dono da padaria todas as manhãs esta dando em cima de mim e nossos filhos só ficam perguntando por você. Receio que depois de nove meses eles nem mesmo vão te conhecer.

Não deu outra. Na segunda feira o residente pediu seu desligamento da fazenda após três meses. Eles acabaram de Tomar o chá de “já tôbão”. A maioria dos casos a recaída é quase certa e o sofrimento volta dobrado.

Outra esposa, ao visitar seu companheiro, teceu um comentário muito infeliz sobre um trabalho que ele tinha feito o mês inteiro para presenteá-la na visita. Na segunda ele me procurou para atendê-lo. Este homem estava arrasado e me falou:

– Doutor, você não acredita, eu fiquei o mês inteiro talhando esta madeira com o nome da minha esposa e com o meu. Depois a lixei e envernizei. Todos aqui da fazenda elogiou meu trabalho, inclusive o Padre Osvaldo. Era para comemorar nosso aniversário de casamento. Quando fui entregar para ela, ela tomou um susto e disse com uma frieza incrível:

-Foi você que fez isto? Não acredito! Você jamais conseguiria fazer algo semelhante.

Segundo ele, estas palavras calaram fundo na sua alma. Ele mostrou suas mãos cheia de calos. Sua autoestima foi à zero. Com lágrimas nos olhos, tentei reverter a situação pedindo a ele para compreender sua esposa, afinal, foram muitos anos de conflitos familiares e que ia demorar um pouco para conquistar sua esposa novamente. Ele entendeu a situação e permaneceu em tratamento até completar o processo.

A partir destas histórias e tantas outras, tomamos a decisão de estabelecer as regras para esta visita, dentre elas, a obrigatoriedade de participar das reuniões dos grupos de apoio. Infelizmente, até hoje, muitas clinicas e Comunidades Terapêuticas ainda não adotam este critério.

Obs.: Estas histórias são verdadeiras.

Cláudio Martins Nogueira – Psicólogo Clínico.

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  • Setembro 12, 2020
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